MEMÓRIAS DE ARQUIVO
Wander Melo Miranda – UFMG
Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período
riscar, engrossar os riscos e transforma-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígios de idéias obliteradas. (Graciliano Ramos)
Silviano Santiago
Nas primeiras linhas do capítulo introdutório das Memórias do cárcere, Graciliano Ramos declara ter inutilizado as notas que tomou durante a prisão. Obstáculo de início intransponível para a escrita do livro, a falta de notas torna-se, na verdade, razão da sua liberdade narrativa. Diz o narrador, ao terminar o mesmo capítulo:
Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos, gemidos.[1]
A afirmação da “perda irreparável” é seguida pela síntese alusiva, carregada de extrema emotividade na sua contenção minimalista, da experiência vivida, que se verá desdobrada no tempo recriado. A possibilidade da reminiscência descortina-se onde a história triunfalista dos “homens do primado espiritual”[2]procede ao cancelamento do passado, ou seja, no insignificante, no excluído, no menor. Há aí um silêncio que procura fazer-se ouvir, o traço de uma fala emudecida que se vê postulada como linguagem do outro e com a qual o narrador se identifica, desobstruindo, sem paternalismos, suas vias de expressão. De testemunho, observador ou anotador passa à categoria de participante efetivo dos acontecimentos rememorados, a que a elaboração do livro irá revestir de um valor ético inquestionável.
É o desejo, pois, de fazer viver o que estaria morto para sempre, mas que perdura sob a forma de uma falta insistente, que detona o movimento da escrita. A ausência das anotações preliminares, consideradas como dado arquivístico que poderia conferir veracidade “etnográfica” à narrativa, reverte a expectativa documental da leitura, então transformada em memória compartilhada, livre, portanto, do jugo excludente da voz de um autor ou dos limites do registro factual. A radicalidade da situação narrativa de Memórias do cárcere talvez esteja na perda desse arquivo virtual, que se torna presente à medida que vai sendo recuperado — e ao mesmo tempo desconstruído — por meio da auto-reflexão que pontua o embate incessante entre memória e imaginação, ambas intercambiáveis.
A tarefa infinita de confrontar a escrita com ela mesma parece ser emblemática de uma forma específica de conhecimento, na qual o acúmulo do capital simbólico que é a experiência rememorada vai sendo desfeito no momento mesmo da acumulação. A rigor, nada autoriza uma palavra final (a propósito ou por acaso literalmente ausente de Memórias do cárcere), uma vez que a reminiscência potencializa ao máximo a multiplicação de versões as mais diversas. Walter Benjamin, para salientar o ilimitado da recordação refere-se às provas da Recherche, que Proust devolvia ao editor Gallimard sem nenhuma correção gráfica, embora preenchidos todos os espaços em branco por um novo texto.[3]Resgatar tal procedimento na atualidade, diante dos volumes publicados de Proust ou de qualquer outro escritor, é restituir ao texto sua gestualidade perdida de escritura, sua dinâmica de transformações, acréscimos, rasuras, subtrações. É como se numa ampla rede discursiva cada variante fosse um ponto de inúmeras conexões, um rizoma cuja visibilidade o texto final não deixa sempre entrever.
Esse ato de “recuperação mnemônica”[4] desloca a noção de texto como produto acabado ou definitivo na sua integridade para a de escrita, considerada como memória espacializada, cujos contornos resultam não de um sentido pleno ou de uma versão definitiva, mas de um jogo de intensidades, marcado pela força de significação que cada elemento vai adquirindo no conjunto significante que é o texto concluído e, a rigor, nunca terminado. Nesse caso, a gênese textual deriva de articulações e construções lógicas que se vão constituindo après-coup, da perspectiva de uma temporalidade não linear, anti-evolucionista, expressa por uma mnemotécnica capaz de traduzir-se sob a forma de uma organização arquivística — a que o texto, na sua intenção de significar, pode mimetizar ou contrariar.
Mas voltemos ao caso Graciliano Ramos. No arquivo do escritor, alocado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, há um conjunto significativo de manuscritos pertencentes a sua obra memorialística. De acordo com Yêdda Dias Lima, é composto de autógrafos a lápis e a tinta, bem como de um datiloscrito, num total de 448 folhas. Todos os textos contêm rasuras: correções, acréscimos, substituições, supressões. Estão subdivididos em blocos distintos que correspondem a três versões, todas inacabadas e quatro conjuntos de listas, além de fragmentos, espalhados como reaproveitamento de papel para a escrita, no verso de manuscritos de outras obras. Há também o que poderia ser considerado uma quarta versão da obra – o chamado “manuscrito azul” – composto de fragmentos e de um conjunto inteiro, sob o título de “Gaúcho”, em tinta azul, que não corresponde ao capítulo reproduzido na 1a edição e que remete à discussão ou polêmica, iniciada em 1953pelo crítico Wilson Martins, sobre o comprometimento do Partido Comunista em censurar ou adulterar o texto. Seguem-se as respostas de Ricardo Ramos, filho do escritor, responsável e representante da família na publicação, e do editor José Olympio, o que leva Wilson Martins a encerrar a polêmica (O Estado de São Paulo, 25/12/53). A polêmica é retomada, no entanto, pelo mesmo Wilson Martins, apoiado agora pela filha do escritor, Clara Ramos, (Jornal do Brasil, 14/11/79), detentora de sete capítulos manuscritos das Memórias, atualmente publicados em fac-símile, com o título de Cadeia (Rio de Janeiro: José Olympio, 1992).
Esse arquivo é, como todo arquivo, conforme ensina Michel Foucault, um sistema de discursos que encerra possibilidades enunciativas agrupadas em figuras distintas, compostas umas com as outras segundo relações múltiplas e mantidas ou não conforme regularidades específicas. Nesse sentido, o arquivo não é o depósito de enunciados mortos, acumulados de maneira amorfa, como se fossem meros documentos do passado, reduzidos a testemunhos permanentes da identidade de uma cultura. Nas palavras de Foucault, “longe de ser o que unifica tudo o que foi dito no grande murmúrio confuso de um discurso, longe de ser o que nos assegura existir no meio do discurso mantido, é o que diferencia os discursos em sua existência múltipla e os especifica em sua duração própria.”[5]
A prática arquivística define-se, assim, pelo valor diferencial que congrega e permite, ao mesmo tempo, a subsistência de enunciados e sua regular transformação, às vezes intermináveis. Daí não ser o arquivo descritível em sua totalidade, mas por fragmentos, regiões e níveis, distintos com maior clareza em virtude da distância temporal que dele nos separa. Em suma, ele “é a borda do tempo que envolve nosso presente, que o domina e que o indica em sua alteridade (...) Ele estabelece que somos diferença, que nossa razão é a diferença dos discursos, nossa história a diferença dos tempos, nosso eu a diferença das máscaras.”[6]
Pensar a Coleção Archivos - que abre espaço para a edição crítica das Memórias do cárcere - é pensá-la nesses termos, ou seja, da borda do tempo e da alteridade que essa borda indicia; é operar uma sorte de interrupção metonímica no âmbito da vasta cadeia metafórica que configura de forma homogênea o que se chama América Latina e que um projeto anterior, também da UNESCO, contribuiu para consolidar: o volume de ensaios América Latina em sua literatura. Idealizado nos anos 60 e publicado na década de 1970, o livro aborda nossa pluralidade literária de um ponto de vista unificador, através do qual o subcontinente, entendido como urna das “regiões culturais” do mundo contemporâneo, define-se como uma “totalidade”.[7]A noção geopolítica de unidade é aí pressuposto básico de afirmação da identidade cultural, contraface necessária politicamente, embora discutível no plano das produções artísticas, à posição de bloco econômico que a América Latina vinha ensaiando assumir, à época, no mercado internacional.
A reiteração dessa perspectiva universalizante na maioria dos ensaios representantes do melhor que o pensamento moderno produziu entre nós — resulta, pois, de circunstâncias históricas bastante diversas das atuais e de interesses culturais distintos daqueles que presidem a Coleção Archivos. Os critérios metodológicos da coleção são bem conhecidos: estudo filológico e lingüístico dos manuscritos e das edições aprovadas pelos autores; compilação de documentação exaustiva sobre o autor e a obra, análise do texto e do contexto por críticos regionais, nacionais e internacionais; aplicação sistemática de enfoques interdisciplinares a cada obra e dossiê de recepção.[8] Esses critérios delegam aos textos escolhidos o caráter de objetos de coleção e, ao fazê-lo, vão contra a corrente do modelo privilegiado pelos atuais arquivos eletrônicos, dotados de uma linguagem universal suscetível de exprimir toda e qualquer realidade e apta a funcionar como chave de acesso aos mais diversos sistemas de memória.
A lógica do colecionador vale-se, ao contrário, da singularidade, em oposição ao típico e ao classificável, atuando contra a reificação, que é uma forma de esquecimento. Como objeto colecionado, trazido da viagem pela literatura latino-americana, cada texto é um objeto lembrado, uma citação do que parece mais relevante no conjunto da obra de um autor falecido. Citar os mortos ou citar um texto é trazer o passado para o presente, é infundir outra vida ao que foi citado. Análoga à reminiscência, a citação tende a modificar o já fixado e a fazer emergir uma ordem correlacional direcionada ou apta a dar lugar a um novo cânone. A questão do valor coloca-se, portanto, como uma questão de memória: a lembrança torna valioso o objeto lembrado; mais do que isso, o objeto torna valiosa a lembrança, ou seja, redesenha as fronteiras de uma tradição esquecida, que se mostra então plena de atualidade.
O trabalho com os manuscritos e com a recepção dos textos latino-americanos conjuga o processo de anamnesis, que lhe é inerente, com a busca de traços de uma identidade cultural diferida, cujos espectros - no duplo sentido de fantasma e refração - as versões pré-textuais e as anotações marginais armazenam. Entrar nesses arquivos é deparar-se com um universo de lembranças exteriorizadas, resíduo de um saber escritural em ritmo acelerado de apagamento; salvar esses arquivos é fazer do resíduo a ponte para a fixação, sob óptica comparatista, de um corpus que possa oferecer respostas mais convincentes à indagação do que é escrever entre nós.[9]
Trata-se, pois, de traçar o percurso de práticas significantes das diversas literaturas da América Latina, com o intuito de detectar os mecanismos através dos quais tradições muito peculiares se transformam e se conectam, construindo-se regiões de sentido locais e interculturais. Não interessa estabelecer continuidades no interior de um sistema fechado (a tradição concebida como algo imutável e consolidado para sempre), mas pensar nos deslocamentos e agenciamentos textuais como um espaço privilegiado para investigar, dentre outras questões, como a recepção do signo “estrangeiro” suplementa modelos anteriores e abre caminho para a produção de novos valores que, por sua vez, irão ampliar ou reverter o horizonte de expectativas do leitor.
A problematização dos limites culturais - ponto nodal da Coleção - pauta-se, assim, pelo estabelecimento de novos modos de ler o cânone no âmbito de uma modernidade que se projeta e se experimenta como lembrança do exílio e desterritorialização, polissemia e multiculturidade - e, nesse caso, Macunaíma, de Mário de Andrade, pode ser lido como volume exemplar em meio aos demais. A constituição do saber literário latino-americano, enquanto prática intertextual, interdisciplinar e metadiscursiva, articula então localismo e universalismo, contribuindo dessa forma para a invenção de uma origem literária em que o nacional ou latino-americano possa deitar raízes e, ao mesmo tempo, deslocar-se em direção aos movimentos mais gerais da cultura ocidental.
No âmbito dos estudos comparatistas, parece instigante pensar Archivos através da lógica da suplementaridade, sugerida de forma emblemática pelo ato mesmo que funda a coleção: o gesto de Miguel Angel Astúrias ao decidir doar à Biblioteca Nacional de Paris, em 1971, seus manuscritos.[10]Insinuando-se no espaço hegemônico de referência do saber literário dominante, a coleção-suplemento desenvolve uma estratégica específica de adição - e nisso se diferencia de outras anteriores –, uma soma que não fecha, mas intervém no cálculo que visa a totalizar, pela semelhança unificadora, os traços de identidade de uma cultura. Há nessa lógica suplementar um vetor de secundariedade, de instância subalterna, que leva à promoção de uma sintaxe cujos elementos formadores dão visibilidade (ou virtualidade) menos à identidade do que à diferença cultural. Sendo assim, cada texto-fator dessa soma que não fecha mantém sua singularidade, cada literatura sua dominante alternativa. Em conseqüência, ao serem considerados no conjunto que formam, os textos produzem um espaço de significação descentrada, onde a literatura passa a ser lida como um fenômeno local, aberto a todas as modalidades de discurso minoritário ou residual, o que impede a convergência da resposta do que venha a ser a literatura latino-americana para um centro de pleno sentido.
A necessidade de marcar afinidades, discutir interesses e gostos, definir espaços de intercâmbio transcultural, mostra-se pela capacidade incomum da coleção de traduzir processos gerais e diferenciados de afiliação textual. Essa tradução, longe de ser uma forma estéril de catalogação e taxonomia, consiste em refazer nossa história literária como “el movimento mismo que se situa en el intervalo y lo crea al mismo tiempo”.[11] Tem-se, pois, uma história alternativa - outra e alternada -, nascida da junção de textos-signos que vão se afirmando, por meio de renovada tensão entre si, como produto de uma relação e de um processo.
Em virtude da própria diferença lingüística que instaura no conjunto predominantemente hispânico, a presença da literatura brasileira na Coleção é um elemento a mais em favor do descentramento, contra a unificação homogeneizante e propiciador de uma integração renovada. O resultado é uma configuração constelar, que redefine os textos reunidos não em termos de causalidades discursivas ou origens preconcebidas, mas que deixa em aberto, como já foi dito, um espaço de suplementaridade, onde possa ser articulado ou problematizado o novo cânone que daí se origina.
Macunaíma, de Mário de Andrade, e A paixão segundo G.H, de Clarice Lispector - dois dos volumes brasileiros já publicados -, traduzem à sua maneira a criação desse espaço. A rapsódia andradina através do que Darcy Ribeiro chamou de “nossa circunstância inelutável”. Diz o antropólogo: “Por mais exóticos que sejamos e queiramos ser, é neste curral, nesta dimensão que existimos. Nela é que estamos condenados a criar. Felizmente - e quem inaugura esta moda é Mário - já não só papagaiando, nem provendo material etnográfico e folclórico bruto para digressões alheias. Mas digerindo, nós mesmos, as nossas diretrizes, endofagicamente para exprimir, melhor que outro qualquer, o humano que encarnamos”.[12]A endofagia é aí o elemento catalisador de uma prática de interferências e cruzamentos interculturais cuja medida e alcance as elaboradas versões do texto indicam. E nos interstícios do trabalho escritural resgatado pela crítica genética - ela também uma modalidade comparatista — que se esboça a epifania de um significado novo, porque nosso e outro, em construção incessante.
Momentos epifânicos irão compor, na sua radicalidade, a obra de Clarice Lispector, agora da perspectiva do confronto entre o ser e o nada (ou o não ser nada, nosso velho e sempre atual dilema), entre linguagem e silêncio. A comunhão profana de G. H. com o abjeto é travessia da alteridade que nos constitui - “atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai atravessar”, nas palavras da advertência inicial de Clarice ao leitor. Travessia alegórica, enfim, do tempo homogêneo e vazio da história universal da exclusão e da infâmia (Borges dixit), na forma de uma descontinuidade que desconstrói, para então poder expressar com todas as letras, a agoridade da literatura que usamos chamar de latino-americana, sua “circunstância inelutável”, mas generosa e forte o suficiente para dinamitar antigas fronteiras artísticas, culturais, disciplinares e territoriais.
[1]RAMOS. Graciliano. Memórias do cárcere. 15a ed. São Paulo: Record, 1982.v. 1, p.36.
[2]Idem, p.34.
[3]BENJAMIN, Walter. Avanguardia e rivoluzione. Torino: Einaudi, 1973, p. 27-43: Per um ritratto di Proust. p. 28.
[4]COLOMBO, Fausto. Os arquivos imperfeitos. São Paulo: Perspectiva, 1991. p. 38.
[5]FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 161.
[6] Idern, p. 163.
[7]Cf. MORENO, César Fernández (org.). América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva. 1979. p. xi e xii.
[8] Cf. GORDON. Samuel. La colección Archivos y los cambios de paradigma en la crítica literaria latinoamericana. In:--. La colección Archivos: hacia un nuevo canon. p. l2.
[9]Sobre a indagação, ver GUERRERO, Gustavo. De los usos de archivos. In: GORDON, op. cit., p. 22.
[10]Sobre a co1eção, ver de seu diretor SEGALA, Amos. Éditer la littérature latino-américaine et caraíbe; la collection “Archivos”. Genesis. Paris, n.1, 1992, p.16l-l66.
[11] MOSER, Walter. El vaivén hermenéutico y la literatura comparada. In: Eutopías.Minneapolis/Valencia,n. 2-3, p. 22. otoño 1987.
[12]RIBEIRO, Darcy. Liminar. In: ANIDRADE, Mário. Macunaíma. Coord. Telê Ancona Lopes. Brasília: CNPq, p: xxi-xxii. Col. Archives.